Como receber pagamento da Argentina: guia para exportadores brasileiros
10 min de leituraPor ComexAR

Para receber pagamento da Argentina, a empresa brasileira tem dois caminhos: o cliente argentino compra dólares no mercado de câmbio e transfere ao Brasil, ou paga em pesos pelo Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML) e você recebe em reais. Desde abril de 2025, a maioria das importações de bens pode ser paga sem o antigo prazo de espera.
Durante anos, a dúvida que mais travava uma venda para a Argentina foi a data em que o dinheiro ia chegar. As restrições cambiais obrigavam o importador argentino a esperar meses para pagar, e muitos exportadores brasileiros passaram a exigir pagamento antecipado ou simplesmente desistiram do mercado.
Esse cenário mudou bastante, mas não ficou automático. O pagamento continua dependendo de regras do Banco Central da República Argentina (BCRA), do registro aduaneiro da mercadoria e da forma de cobrança combinada no contrato. Neste artigo, explicamos como o dinheiro sai da Argentina, o que mudou nas normas, quais formas de pagamento fazem sentido e como se organizar antes do primeiro embarque.
Como o pagamento sai da Argentina e chega ao Brasil?
O importador argentino paga por meio de um banco local, que acessa o Mercado Livre de Câmbios (MLC) para comprar a moeda estrangeira e enviá-la ao exterior. Do lado brasileiro, o exportador recebe a transferência e fecha um contrato de câmbio de exportação com o seu banco, convertendo os dólares em reais.
Essa operação tem duas pontas reguladas. Na Argentina, o banco do importador só libera a compra de divisas se a operação cumprir as condições do BCRA, que exigem, por exemplo, que a importação esteja vinculada a uma mercadoria registrada na aduana e que o importador apresente as declarações juradas exigidas. No Brasil, o recebimento segue o marco cambial da Lei 14.286/2021, que simplificou as regras de câmbio e está em vigor desde o fim de 2022.
Na prática, isso significa que o dinheiro não depende só da vontade do cliente. Um importador com boa intenção, mas com documentação incompleta ou mercadoria ainda sem registro de ingresso, pode ter o pagamento recusado pelo próprio banco. Por isso, a forma de pagamento precisa ser pensada junto com a operação de importação, e não depois dela.
O que mudou nas regras de câmbio para o importador argentino?
A mudança mais importante veio com a Comunicação "A" 8226 do BCRA, que passou a valer em 14 de abril de 2025. Para importações de bens com registro de ingresso aduaneiro a partir dessa data, o importador pode pagar o fornecedor sem o prazo de espera de 30 dias que vigorava antes.
Para entender o tamanho da mudança, vale lembrar o histórico recente. No fim de 2023, a Comunicação "A" 7917 criou um esquema escalonado, em que a maior parte das importações era paga em quatro parcelas a 30, 60, 90 e 120 dias do registro aduaneiro. Em outubro de 2024, a Comunicação "A" 8118 reduziu a espera para 30 dias para todos os bens. Em abril de 2025, a espera deixou de existir para a maioria das operações.
Há ainda condições específicas. Empresas argentinas com certificado MiPyME podem pagar à vista a partir do embarque na origem, e os bens de capital passaram a admitir pagamentos antecipados parciais, limitados a uma parte do valor FOB, antes mesmo da chegada da mercadoria. Algumas posições tarifárias seguem com regras próprias, e o banco do importador é quem confirma o enquadramento de cada operação.
Vale um alerta: as normas cambiais argentinas mudam com frequência. Em abril de 2026, por exemplo, a Comunicação "A" 8417 passou a exigir do comprador de divisas uma declaração jurada de que não fará determinadas operações com títulos por 90 dias. Esse tipo de exigência não impede o pagamento, mas mostra por que o importador precisa conferir a regra vigente com o banco antes de prometer uma data ao fornecedor.
Quais formas de pagamento usar com clientes argentinos?
As formas mais usadas são o pagamento antecipado, a transferência após o embarque, a cobrança documentária e a carta de crédito. A escolha depende do histórico com o cliente, do valor da operação e de quanto risco a sua empresa aceita correr.
| Forma de pagamento | Quando o dinheiro chega | Risco para o exportador | Quando faz sentido |
|---|---|---|---|
| Pagamento antecipado | Antes do embarque | Baixo | Primeiras vendas, cliente novo ou produto sob encomenda |
| Transferência após o embarque ou a prazo | Depois do registro de ingresso na Argentina, no prazo combinado | Alto | Clientes antigos, com histórico de pagamento |
| Cobrança documentária | Quando o cliente paga ou aceita os documentos no banco | Médio | Quem quer controle sobre os documentos sem o custo de uma carta de crédito |
| Carta de crédito | Quando os documentos são apresentados conforme o crédito | Baixo, se o banco emissor for sólido | Valores altos ou cliente sem histórico |
| SML (em reais) | No prazo combinado, com crédito no dia útil seguinte ao processamento | Igual ao da forma de pagamento combinada | Quem quer evitar o dólar e faturar em reais |
O pagamento antecipado parece a opção mais segura, e é, mas tem um limite comercial: poucos clientes argentinos aceitam pagar tudo antes de a mercadoria sair. Para bens comuns, o importador argentino também precisa conferir se o seu banco permite a antecipação no caso dele. Em muitos casos, o meio-termo funciona melhor, com um sinal na confirmação do pedido e o saldo após o registro de ingresso.
A venda a prazo é a que mais exige cuidado. Antes de 2025, era comum o exportador vender a prazo e descobrir depois que o cliente não tinha acesso ao câmbio. Hoje, o acesso está mais aberto, mas o risco de crédito do cliente continua sendo seu. Se a operação for recorrente, vale considerar seguro de crédito à exportação ou garantias bancárias.
A forma de pagamento entra na negociação junto com o preço e o Incoterm
Como funciona o SML para receber pagamento da Argentina em reais?
O SML é um sistema criado em 2008 pelo BCRA e pelo Banco Central do Brasil para que importadores e exportadores dos dois países paguem e recebam em suas próprias moedas. O cliente argentino paga em pesos no banco dele, e a sua empresa recebe em reais no banco brasileiro, sem que nenhuma das partes precise negociar dólares.
Para usar o sistema, a operação precisa ser documentada na moeda do exportador. Ou seja, a fatura de uma venda brasileira para a Argentina deve ser emitida em reais. O importador inicia o pagamento em uma instituição financeira autorizada, o BCRA repassa os recursos ao Banco Central do Brasil, e o crédito chega à instituição do exportador, no máximo, no dia útil seguinte ao recebimento dos fundos.
Algumas características do SML, segundo o Banco Central da República Argentina, ajudam a decidir se ele serve para a sua operação. O uso é opcional e complementar ao câmbio tradicional, não há valor mínimo nem máximo, e as operações com o Brasil abrangem com ércio de bens e serviços conexos, como frete e seguro, com prazo de até 360 dias. A conversão usa a Taxa SML, divulgada diariamente pelos dois bancos centrais, embora cada banco possa negociar uma taxa própria com o cliente.
Há dois pontos de atenção. O SML não é uma proteção contra a variação cambial: se você fatura em reais, quem assume a variação do peso é o importador, o que pode pesar na negociação. E os bancos centrais atuam apenas como intermediários, sem garantir o pagamento. O risco de crédito do cliente continua existindo, e o SML só muda a moeda e o caminho do dinheiro. Além disso, o sistema fecha nos fins de semana e nos feriados bancários de qualquer um dos dois países.
O que a empresa brasileira precisa fazer do lado do câmbio?
No Brasil, receber o pagamento de uma exportação é uma operação de câmbio comum. Você precisa de uma conta em um banco autorizado a operar câmbio, de um contrato de câmbio de exportação para converter os recursos e dos documentos da venda, como a fatura comercial e a declaração de exportação.
A legislação brasileira dá bastante liberdade ao exportador. Desde a Lei 11.371/2006 e as resoluções do Conselho Monetário Nacional que vieram depois, a empresa pode manter no exterior até 100% das receitas de exportação, o que é útil para quem também paga fornecedores em dólares. O contrato de câmbio de exportação também pode ser fechado antes do embarque, como forma de financiamento, por meio do Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC).
O que costuma gerar problema é a falta de coerência entre os documentos. O valor, a moeda, o Incoterm e os dados do importador precisam ser os mesmos na fatura, na declaração de exportação e no contrato de câmbio. Quando o cliente argentino paga com base em uma fatura diferente da registrada na aduana argentina, o banco dele pode bloquear a transferência, e a correção atrasa o recebimento em dias ou semanas.
Quais riscos ainda pedem atenção?
Os riscos principais são o crédito do cliente, uma mudança de regra cambial durante a operação e erros documentais que impedem o importador de acessar o câmbio. Os três podem ser reduzidos com análise prévia e com um contrato de venda bem amarrado.
O risco de crédito é o mesmo de qualquer venda internacional: o cliente pode atrasar ou não pagar. Com clientes novos, a recomendação é começar com antecipado ou carta de crédito e flexibilizar conforme o histórico. Com clientes recorrentes, um limite de crédito revisado periodicamente evita concentração excessiva.
O risco regulatório é mais específico da Argentina. A liberalização de 2025 foi ampla, mas o país tem histórico de idas e vindas nas regras de câmbio. Um contrato de venda que define com clareza o momento do pagamento, a moeda e o que acontece em caso de restrição cambial protege as duas partes.
O risco documental é o mais fácil de evitar e o que mais aparece na prática. O importador só acessa o câmbio quando a mercadoria tem registro de ingresso aduaneiro correto. Uma carga retida por divergência de classificação, de valor ou de certificado de origem também retém o pagamento. Por isso, quem cuida da importação do lado argentino tem papel direto na data em que você recebe.
O registro de ingresso da carga na Argentina destrava o acesso do importador ao câmbio
Como organizar a cobrança antes do primeiro embarque
A melhor hora para resolver o pagamento é antes de enviar a proposta comercial. Com algumas definições feitas cedo, você evita renegociar prazos com a carga já na estrada.
- Confirme quem vai importar na Argentina e se essa empresa tem acesso regular ao câmbio para o tipo de bem que você vende.
- Escolha a moeda e o canal: dólar pelo câmbio tradicional ou reais pelo SML.
- Defina a forma de pagamento e as garantias conforme o histórico do cliente.
- Alinhe fatura, Incoterm e documentos de origem com o despachante que fará a importação.
- Combine no contrato o prazo de pagamento contado a partir de um evento verificável, como o embarque ou o registro de ingresso.
Quando o cliente argentino não é importador habilitado, ou quando a venda é feita em condição entregue, o pagamento depende de quem assume a importação. Nesses casos, um Importer of Record na Argentina importa em nome próprio, cumpre as obrigações aduaneiras e cambiais e organiza o fluxo de pagamento com o fornecedor brasileiro. Explicamos os modelos de venda no guia sobre como vender para a Argentina sem ter empresa lá, e a página sobre exportação de produtos brasileiros para a Argentina mostra como acompanhamos a operação do começo ao fim.
Receber da Argentina com apoio local
As regras para receber pagamento da Argentina ficaram mais simples desde 2025, mas o dinheiro continua dependendo de um registro aduaneiro correto e de um importador com acesso ao câmbio. A ComexAR acompanha empresas brasileiras em português dos dois lados da operação, da escolha do modelo de venda à liberação da carga e ao fluxo de pagamento. Se você está negociando com um cliente argentino e quer definir a forma de cobrança antes do embarque, fale com a nossa equipe.
Perguntas frequentes
Na maioria dos casos, não. Desde a Comunicação A 8226 do BCRA, de abril de 2025, importações de bens com registro de ingresso aduaneiro podem ser pagas sem o antigo prazo de 30 dias. Algumas posições e situações seguem regras próprias.
Sim, pelo Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML). O cliente paga em pesos no banco dele e a sua empresa recebe em reais, desde que a venda seja faturada em reais e os dois bancos participem do sistema.
Não. O SML muda a moeda e o caminho do dinheiro, mas os bancos centrais atuam só como intermediários. O risco de crédito do cliente continua com o exportador.
Pagamento antecipado ou carta de crédito emitida por banco sólido. Com o histórico, é possível migrar para cobrança documentária ou prazo.
Sim. Pela Lei 11.371/2006 e pelas normas do Conselho Monetário Nacional, o exportador pode manter no exterior até 100% das receitas de exportação.



