Como vender para a Argentina sem ter empresa lá: guia para empresas brasileiras
9 min de leituraPor ComexAR

Para vender para a Argentina sem ter empresa lá, uma empresa brasileira tem três caminhos: deixar o cliente argentino importar, trabalhar com um distribuidor local ou usar um Importer of Record, que assume a importação em nome próprio. A escolha depende de quem é o comprador, do volume e de quanto controle você quer sobre a entrega.
A Argentina é o principal parceiro comercial do Brasil na América do Sul, e a proximidade faz parecer que vender para lá é tão simples quanto vender para outro estado. Não é. A mercadoria cruza uma fronteira aduaneira, entra em outro sistema tributário e precisa de alguém habilitado do lado argentino para ser nacionalizada.
A boa notícia é que o cenário de 2025 e 2026 ficou mais favorável. O governo argentino eliminou o sistema de autorização prévia de importações, ampliou a abertura em vários setores e mantém benefícios relevantes para produtos com origem Mercosul. Neste guia, explicamos como funciona cada caminho, o que pesa no preço final e por onde começar.
Quem precisa importar a mercadoria na Argentina?
Toda importação na Argentina precisa de um importador inscrito no registro aduaneiro da ARCA, o órgão que reúne a receita e a aduana argentinas. Uma empresa brasileira, sozinha, não consegue nacionalizar a carga do lado de lá: alguém com CUIT e habilitação de importador precisa assumir esse papel.
Na prática, isso significa que a sua venda sempre tem duas pontas. Do lado brasileiro, você emite a nota fiscal de exportação e faz o despacho de saída normalmente. Do lado argentino, alguém registra a declaração de importação, paga os tributos e responde pela carga diante da aduana.
Quando o seu cliente argentino já é importador habilitado, ele mesmo cuida dessa segunda ponta. Quando não é, ou quando você quer vender para vários clientes sem depender da estrutura de cada um, é preciso montar outra solução. É aí que entram o distribuidor e o Importer of Record.
Quais são os caminhos para vender sem abrir empresa?
Os três modelos mais usados por empresas brasileiras são a venda direta ao importador argentino, a venda por meio de um distribuidor local e a operação com um Importer of Record. Cada um distribui de forma diferente o risco, a margem e o trabalho.
| Modelo | Quem importa | Para quem faz sentido | Ponto de atenção |
|---|---|---|---|
| Venda direta | O próprio cliente argentino | Clientes industriais ou comerciais que já importam | Você depende da habilitação e da agilidade do cliente |
| Distribuidor local | O distribuidor, que revende no mercado | Quem quer escala sem gerir a operação no país | Parte da margem fica com o distribuidor |
| Importer of Record | Uma empresa habilitada que importa por você | Quem quer vender em condição entregue (DDP) ou atender clientes que não importam | Exige análise prévia de produto e documentação |
A venda direta é o caminho mais simples quando o cliente tem estrutura. O seu trabalho termina, em geral, na fronteira ou no ponto combinado no Incoterm, e o cliente assume custos e trâmites do lado argentino.
O distribuidor resolve o problema de escala: ele compra, importa, estoca e revende. Em troca, fica com uma parte da margem e, muitas vezes, com o relacionamento com o cliente final.
O Importer of Record na Argentina é a alternativa para quem quer manter o controle comercial. Uma empresa local habilitada importa a mercadoria em nome próprio, cumpre as obrigações aduaneiras e tributárias e entrega ao destinatário. Isso permite, por exemplo, vender para um cliente argentino que não importa, ou entregar equipamentos para um projeto sem que o comprador precise se tornar importador.
O que mudou nas regras de importação da Argentina?
A principal mudança recente foi o fim do SEDI, o Sistema Estatístico de Importações, que funcionava como uma etapa prévia obrigatória antes de cada importação. A Resolução Geral Conjunta 5651/2025, publicada no Boletim Oficial em 25 de fevereiro de 2025, revogou o sistema e permitiu registrar a importação para consumo sem essa declaração anterior.
O SEDI tinha substituído o SIRA, que por sua vez havia substituído as antigas DJAI. Durante anos, essas autorizações prévias foram o principal gargalo para quem vendia para a Argentina: a mercadoria ficava pronta, mas o importador não conseguia liberar o pagamento ou a entrada. Com o fim do sistema, esse obstáculo deixou de existir para a maioria das operações.
Isso não significa que qualquer produto entra sem controle. Continuam valendo as intervenções de órgãos técnicos, como SENASA para produtos de origem animal e vegetal, ANMAT para alimentos, cosméticos e produtos médicos, e as certificações de segurança elétrica e de produto exigidas para diversas categorias. Por isso, a primeira pergunta de qualquer operação continua sendo a classificação fiscal do produto na NCM e as exigências ligadas a ela.
Antes do embarque, a classificação fiscal define tributos e exigências na Argentina
Produtos brasileiros pagam imposto de importação na Argentina?
Produtos com origem Mercosul comprovada entram na Argentina, em regra, com tarifa zero de imposto de importação. Existem exceções setoriais, como o regime automotivo e o açúcar, e a preferência só vale quando o produto cumpre as regras de origem e vem acompanhado do certificado correspondente.
A origem não é automática por a mercadoria sair do Brasil. O produto precisa ter sido produzido no Mercosul ou ter passado por transformação suficiente, conforme as regras do Acordo de Complementação Econômica nº 18, que regula o comércio entre os sócios do bloco. O certificado de origem é emitido no Brasil por entidades habilitadas, como federações de indústria e associações comerciais, e hoje circula em formato digital entre os dois países.
Há ainda um benefício menos conhecido. O Decreto 1140/2024 prorrogou até 31 de dezembro de 2027 a taxa de estatística de 3% sobre importações para consumo, mas manteve isentas as operações com mercadoria originária dos Estados Partes do Mercosul. Ou seja, com origem comprovada, o seu produto também deixa de pagar essa taxa.
Quais tributos o importador argentino paga na entrada?
Mesmo com tarifa zero, a importação gera tributos internos na Argentina. O principal é o IVA, com alíquota geral de 21% e de 10,5% para alguns bens, como parte dos bens de capital. Sobre a importação também podem incidir percepções antecipadas de IVA e de Imposto de Renda, que funcionam como adiantamentos para o importador.
Essas percepções têm exceções temporárias. A Resolução Geral 5868/2026 da ARCA manteve até 31 de dezembro de 2026 a exclusão desses regimes para bens de primeira necessidade e para insumos produtivos de micro, pequenas e médias empresas com certificado MiPyME. Como essas regras mudam com frequência, vale confirmar o enquadramento do seu produto antes de fechar o preço.
Para quem vende, esse ponto é estratégico. O tributo é pago pelo importador, mas pesa no preço final que o cliente argentino enxerga. Uma análise de custos de importação na Argentina feita antes da proposta comercial mostra quanto o seu produto vai custar nacionalizado e evita surpresas na negociação.
Quanto custa colocar o produto no cliente argentino?
O custo final é a soma do preço do produto, do frete internacional, do seguro, dos tributos e taxas de importação, dos honorários do despachante e da logística até o destino. Em operações com origem Mercosul, o peso maior costuma estar no IVA, nas percepções e na logística, e não no imposto de importação.
O Incoterm combinado define quem paga cada parte. Em uma venda FCA ou CPT, você entrega a mercadoria e o cliente assume o restante. Em uma venda DAP, você leva até o destino, mas os tributos ficam com o comprador. Em uma venda DDP, você entrega com tudo pago, e é justamente aí que o Importer of Record se torna necessário, porque alguém precisa importar e pagar os tributos do lado argentino.
Uma recomendação prática: não use o preço praticado no Brasil como base para a proposta sem antes simular o custo nacionalizado. Em muitos produtos, a diferença entre o preço de fábrica e o preço que chega ao cliente argentino muda completamente a conversa comercial.
Como funciona a logística entre Brasil e Argentina?
A maior parte do comércio entre os dois países segue por via rodoviária, e a principal passagem é a fronteira entre Uruguaiana e Paso de los Libres. Cargas de maior volume ou destinadas a regiões distantes também usam o modal marítimo, principalmente pelos portos de Santos e Buenos Aires.
No transporte rodoviário, a carga viaja com documentos próprios do comércio regional, como o conhecimento de transporte internacional e o manifesto de carga, e passa pelo controle aduaneiro na fronteira. Explicamos esse trajeto em detalhe no artigo sobre exportação por Uruguaiana e Paso de los Libres.
Já no modal marítimo, o desembaraço acontece no porto de destino, e a carga pode ficar armazenada até a liberação. Nos dois casos, a documentação precisa estar correta antes do embarque, porque um erro descoberto na chegada costuma gerar armazenagem, multa e atraso. Se isso acontecer, o artigo sobre carga retida na aduana argentina mostra os prazos e os próximos passos.
Fechar o modelo de importação antes da proposta evita renegociar o preço depois
Por onde uma empresa brasileira deve começar?
O primeiro passo é definir quem vai importar do lado argentino e confirmar se o produto tem exigências técnicas para entrar. Com essas duas respostas, dá para escolher o modelo de venda, montar o preço e preparar a documentação antes do primeiro embarque.
Uma sequência que funciona bem na maioria dos casos:
- Classificar o produto na NCM e verificar licenças, certificações e intervenções exigidas na Argentina.
- Confirmar se o produto cumpre a regra de origem do Mercosul e quem vai emitir o certificado.
- Definir quem importa: o cliente, um distribuidor ou um Importer of Record.
- Simular o custo nacionalizado e escolher o Incoterm da proposta.
- Combinar com o despachante do lado argentino os documentos e o ponto de desembaraço.
Esse roteiro evita o erro mais comum de quem começa a exportar para a Argentina: fechar a venda primeiro e descobrir as exigências depois, quando a carga já está a caminho.
Vender para a Argentina com apoio local
Vender para a Argentina deixou de ser um caminho cheio de autorizações prévias, mas continua exigindo alguém que conheça o lado argentino da operação. A ComexAR acompanha empresas brasileiras em português, do primeiro estudo do produto até a entrega ao cliente, com despachantes nas aduanas argentinas e estrutura de importação própria quando o cliente não importa. Se você está avaliando um novo mercado ou uma primeira venda, fale com a nossa equipe e conte o que pretende vender.
Perguntas frequentes
Sim. A empresa brasileira exporta normalmente e alguém habilitado na Argentina assume a importação: o próprio cliente, um distribuidor local ou um Importer of Record que importa em nome próprio.
Em regra, não. Produtos com origem Mercosul comprovada pelo certificado de origem entram com tarifa zero, salvo exceções setoriais como o regime automotivo e o açúcar. Os tributos internos, como o IVA, continuam sendo cobrados.
Não para a maioria das operações. A Resolução Geral Conjunta 5651/2025 eliminou o SEDI em fevereiro de 2025. Continuam valendo as intervenções técnicas de órgãos como SENASA e ANMAT, conforme o produto.
Quando o cliente argentino não é importador habilitado, quando a venda é feita em condição DDP ou quando a empresa brasileira quer manter o controle comercial sem depender de um distribuidor.
Depende de quem assume a importação. Em FCA ou CPT, o cliente cuida do lado argentino; em DAP, você leva a carga ao destino e o comprador paga os tributos; em DDP, você entrega com tudo pago e precisa de um importador local.


